Carrinho de compras

O seu carrinho está vazio

Continuar a comprar

Jantar na Arcádia

 

(uma memória do Porto antes da revolução)



Jorge Saavedra, com a irmã Maria Emília (à direita), o amigo João Póvoas, o sobrinho Paulo e a amiga Maria José Figueirinhas (à esquerda). Ao fundo um jovem empregado que servia o jantar, oferecido aos amigos clientes por João Bastos, o dono da Arcádia.

 

O Tio Jorge marcou encontro comigo na Arcádia às seis da tarde. Era um hábito que se intensificara com os meus recém 18 anos encartados e a crise do petróleo de 1973. O Tio Jorge entregava-me o seu Audi coupé de manhã, eu levava-o ao banco, deambulava pela cidade à procura de uma bomba com fila para gasolina e, depois de horas de espera a estudar um pouco e a ler Tintins, ganhava a minha liberdade. Ao fim da tarde parava em frente à Arcádia para entregar as chaves. Se fosse para ficar, subia mais um pouco a Praça e deixava o carro na garagem do Comércio do Porto.

O Tio Jorge trabalhava no Banco Borges & Irmão, na poderosa Comissão de Crédito, onde, entre a análise ao mérito dos pedidos, as relações de amizade, e alguns presentes de permeio, se decidiam muitos futuros do empreendedorismo portuense.  Terminado o dia de trabalho, deixava para trás o austero edifício da Rua de Sá da Bandeira e fazia com prazer a desordenada Rua de Sampaio Bruno, saboreando o seu fervelho de vendedores de sonhos. Quadros a óleo de cores berrantes expostos na calçada misturavam-se com pregões de jornais e cautelas saídas da Casa da Sorte e da Deus Dá A Sorte. E, naquele princípio dos anos 70, a rua transformara-se numa bolsa ambulante, acrescentando às cautelas de lotaria ações de capital de cimenteiras, bancos e seguradoras, distribuídas ao povo em subscrição pública.  

Reabastecia-se de Português Suave, agora com filtro por causa da tosse mais crónica, comprava o jornal desportivo do dia, de preferência O Norte porque era o único que defendia o Porto, atravessava a Praça, e entrava com à vontade familiar na sua sala de estar da cidade. Se ainda não tivesse chegado ninguém, o Senhor Bastos destinava a mesa. Mas as mais das vezes já a conversa corria, entre chás e torradas femininas, triângulos de fiambre e uma Super Bock para os mais contidos, café e Croft, em balão várias vezes cheio, para quem não tinha medo de morrer.  

Nesse dia pusera uma gravata especial porque o programa era alargado. O Senhor Bastos fecharia a porta como sempre às oito horas, e oferecia um jantar privado aos amigos do Tio Jorge, o Senhor Saavedra, que também eram seus amigos. Um gesto de cumplicidade entre dois homens que o tempo foi unindo numa amizade, sempre respeitosa, mas que a partilha de hábitos e o passar dos anos tornara verdadeiramente sincera.        

O Senhor Saavedra era um homem solteiro, com fama de ser de família antiga com muitos bens. Por trás do discreto funcionário bancário falava-se de quintas no Douro, de antigos armazéns de vinhos na cidade, e especialmente de uma quinta em Gaia que albergara o Wellington nas invasões francesas. Mas nada disto ele integrava na sua vida social. Deixava tudo ao cuidado da irmã casada, do cunhado, e agora aos poucos do sobrinho mais velho que o acompanhava para todo o lado. 

O Senhor Bastos respeitava no Senhor Saavedra a sua simplicidade. Tanto se dava com gente da alta como podia aparecer com o contínuo do banco, apresentado como amigo. Para alguém sem douradura social no Porto da época, entrar na Arcádia só assim. O destino de casta terminava num fino com tremoços na popular Sá Reis. Ou, quando muito, num lanche romântico na Ateneia, se arranjasse uma namorada decente para casar. Sá Reis, Ateneia e Arcádia, seguidas nesta ordem, expostas da esquerda para a direita no quarteirão principal da Praça da Liberdade, eram a leitura rigorosa da condição social de cada portuense.

– Quem o Senhor Saavedra gostaria de convidar para o jantar? Ambos sabiam que tinha de ser uma seleção restrita, o Senhor Bastos não fechava a Arcádia para jantares mundanos, só mesmo para as suas festas de família e amigos íntimos. Iria claro a Conceição, namorada e rica herdeira dos Transportes dos Carvalhos. A amiga Maria José Figueirinhas, das melhores famílias da cidade. O João Póvoas, companheiro de todos os dias, e a irmã Margarida, solteiros e aristocratas. Casados mesmo só o casal Macedo. E a família, a irmã Maria Emília com o cunhado José Paulo. O sobrinho Paulo, que vinha trazer o carro, podia ficar também.      

Foi um jantar que ficou na memória da família. Primeiro os aperitivos na sala do balcão. Depois a mesa posta na sala grande da cave. O Senhor Bastos assumia a presidência, e orientava a disposição dos convidados, o olhar do fotógrafo, a escolha dos vinhos, a chegada dos pratos de peixe e carne. No final as tartes da Arcádia. Com o vinho do Porto, o pai José Paulo fez um brinde de agradecimento. Como era um pouco mais velho, lembrava-se bem do pai fundador Manuel Bastos à frente da jovem confeitaria art déco dos seus tempos de estudante. Lembrava-se das meninas casadoiras marcarem encontro na Arcádia com os pretendentes, para descanso das mães. Da lenda do empregado cúmplice que servia vinho branco em chávena de chá a uma dessas meninas. Dos rapazes como ele, com fome grande e semanada curta, fazerem fugas rápidas às casas de pasto nas traseiras do Palácio das Cardosas para comer uma isca de fígado de cebolada com vinho de tonel. E reaparecerem saciados para continuar o chá romântico.   

Paulo de Lencastre

Porto, 13 de dezembro de 2020